Elika Takimoto é deputada estadual pelo PT/RJ, professora de Física, escritora, mãe de três artistas e mulher com deficiência — desde jovem, ouve apenas com a ajuda de próteses auditivas.
Foi eleita com 95.263 votos. Na Alerj, é a primeira mulher a presidir a Comissão de Ciência e Tecnologia e também integra as comissões de Constituição e Justiça, Educação, Pessoas com Deficiência e Servidores Públicos. Atua na defesa da educação pública, da ciência, dos trabalhadores, da cultura, da justiça social, dos direitos das mulheres e das pessoas com deficiência, no combate à desinformação e na defesa da democracia.
É doutora em Filosofia pela UERJ e professora licenciada do CEFET/RJ. Dedicou mais de 30 anos à sala de aula e segue acreditando que o conhecimento, a ciência e a política são instrumentos para transformar a vida das pessoas.
Candidata à reeleição, ela conta novamente com o voto da população para que seja possível seguir escrevendo um futuro em que a educação, a ciência e a solidariedade sejam os alicerces da construção do Rio de Janeiro que todos merecem.
VAMOS PARA A ENTREVISTA
ET: Eu estou disputando a reeleição porque acho que ainda temos muito trabalho pela frente. Foram quatro anos muito intensos na Alerj e eu quero continuar algumas lutas que fazem parte não só do meu mandato, mas da minha própria trajetória.
Eu sou professora há mais de 30 anos. Então é evidente que a defesa da educação, das universidades, da pesquisa e dos servidores públicos vai continuar sendo uma prioridade para mim. Mas o mandato abraçou outras pautas também, como a cultura, os direitos das mulheres, os direitos humanos e a defesa das pessoas com deficiência.
E tem uma coisa que esses quatro anos me ensinaram muito: política pública precisa fazer diferença concreta na vida das pessoas. Às vezes a política fica presa a discussões que parecem muito distantes de quem está em casa trabalhando, pagando conta, pegando transporte público. Eu quero continuar fazendo um mandato que consiga transformar essas discussões em coisas concretas.
Quero mais quatro anos para dar continuidade ao que começamos, corrigir o que for preciso e ampliar nossa presença pelo estado. Eu ainda tenho muita disposição para essa luta.
BC: Quais seus planos para a área cultural do Estado?
ET: Essa é uma questão que me toca muito pessoalmente. Eu tenho três filhos artistas. Então sei, dentro da minha própria casa, o que significa escolher a arte como profissão. Sei das dificuldades, da insegurança, da falta de incentivo e também sei o quanto a arte pode transformar a vida de uma pessoa.
Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade quando tratam cultura como se fosse uma coisa secundária. Cultura é trabalho. Tem gente que paga aluguel, cria filho e coloca comida na mesa fazendo teatro, música, dança, cinema. Cultura também é memória, identidade e educação.
No mandato, nós tivemos uma atuação muito forte na defesa do patrimônio cultural do Rio. Reconhecemos e ajudamos a proteger teatros, livrarias, companhias de dança, festivais, blocos, manifestações populares e vários espaços culturais. Eu também integro a Frente Parlamentar em Defesa do Samba e do Carnaval.
Mas existe um problema no Rio que me incomoda muito. Você olha para a oferta de equipamentos culturais e encontra uma concentração enorme no Centro e na Zona Sul da capital. Saiu desse eixo, a realidade é outra.
Cadê os teatros na Baixada? Cadê os equipamentos culturais no subúrbio? Quantos municípios do interior oferecem uma estrutura adequada para seus artistas se apresentarem e para a população ter acesso à programação cultural regularmente?
E eu não estou dizendo que não existe cultura nesses lugares. É justamente o contrário. Existe muita cultura. Existe uma produção incrível nas periferias, no subúrbio, na Baixada e no interior. O que não existe na mesma proporção é investimento, equipamento e oportunidade.
Essa é uma coisa que eu quero enfrentar num próximo mandato. Precisamos descentralizar de verdade. E descentralizar não é pegar um espetáculo que normalmente acontece na Zona Sul e fazer uma apresentação na Baixada. É criar condições para que a produção cultural da própria Baixada tenha espaço, financiamento, público e continuidade. Para que um artista não precise sair do lugar onde vive para conseguir existir profissionalmente.
BC: Como a senhora vê a cultura no Estado do Rio de Janeiro?
ET: O Rio respira e se expressa através da cultura. Somos um estado de uma riqueza cultural absurda, talvez uma das maiores do país, mas o acesso a essa cultura é profundamente desigual.
Quem mora no Centro ou na Zona Sul da capital tem uma oferta de teatros, cinemas, museus e centros culturais que não existe na mesma proporção em outras regiões. Para quem mora no subúrbio, na periferia, na Baixada ou em muitas cidades do interior, a realidade é completamente diferente.
E isso acaba determinando oportunidades também. Porque não estamos falando apenas de quem quer assistir a uma peça. Estamos falando de quem quer ser ator, músico, bailarino, produtor, diretor, escritor. Onde essa pessoa ensaia? Onde se apresenta? Onde encontra público? Como constrói uma carreira se quase toda a estrutura está concentrada longe dela?
Agora, uma coisa precisa ser dita: não falta cultura nesses territórios. Não precisamos “levar cultura” para a Baixada, para o subúrbio ou para o interior. Isso seria até uma maneira muito arrogante de olhar para esses lugares. A cultura já está lá. E está pulsando.
O que precisamos levar é investimento público, estrutura e oportunidade.
Eu quero muito colocar essa discussão no centro do próximo mandato. Porque acesso à cultura também é uma questão de desigualdade. O CEP de uma pessoa não pode decidir se ela vai ter um teatro perto de casa ou se um jovem artista vai conseguir desenvolver sua carreira.
*BC: Queria que você fizesse uma comparação do governo Lula ao Governo Bolsonaro. O que você acha que melhorou?*
ET: Na cultura, para mim, a diferença é muito evidente.
Uma das primeiras decisões do presidente Lula foi recriar o Ministério da Cultura, que havia sido extinto no governo Bolsonaro e transformado em secretaria. E isso pode parecer uma questão burocrática, mas não é. Ter um Ministério da Cultura significa ter a cultura novamente participando das decisões de governo, disputando orçamento e sendo reconhecida como política pública.
Durante o governo Bolsonaro houve uma hostilidade muito grande em relação aos artistas e à própria cultura. A cultura virou alvo de uma disputa ideológica permanente. A Lei Rouanet foi demonizada durante anos, como se incentivo à cultura fosse privilégio ou dinheiro entregue a artista famoso. Isso criou uma imagem completamente distorcida de uma política que movimenta uma cadeia enorme de trabalhadores.
Com Lula, houve uma retomada da Lei Rouanet, revisão das regras que haviam restringido o mecanismo e ampliação do investimento. A captação chegou a cerca de R$ 3 bilhões em 2024. E é importante explicar o que isso significa. Quando você financia uma peça, um filme, um festival ou um projeto cultural, não está pagando apenas quem aparece no palco. Tem técnico, iluminador, figurinista, músico, produtor, motorista, costureira, cenógrafo e uma quantidade enorme de profissionais trabalhando.
A Lei Paulo Gustavo também é um exemplo muito importante. Ela foi aprovada em 2022, mas enfrentou obstáculos para sair do papel. Com Lula e com a recriação do Ministério da Cultura, a lei foi regulamentada e efetivamente executada. Foram cerca de R$ 3,8 bilhões destinados à cultura, chegando aos estados e municípios depois de um período terrível para o setor durante a pandemia.
Sei que viver de arte não tem nada de glamouroso. É trabalho. Tem boleto, tem aluguel, tem insegurança e tem uma enorme dificuldade de conseguir espaço. Por isso faz diferença ter um governo que reconheça que o trabalhador da cultura é, antes de tudo, um trabalhador.
Então acho que essa é uma diferença muito clara. Bolsonaro tratou muitas vezes a cultura como um problema e os próprios artistas como adversários. Lula recriou o Ministério da Cultura e retomou instrumentos importantes de financiamento e diálogo com o setor.
Agora, eu também acho que precisamos avançar. E uma das minhas cobranças é justamente a descentralização desses recursos e dessas oportunidades. A Rouanet cresceu? Ótimo. A Lei Paulo Gustavo colocou bilhões na cultura? Fundamental. Mas precisamos fazer esse dinheiro chegar cada vez mais a quem historicamente ficou de fora dos grandes circuitos.
Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre os dois momentos. Hoje nós podemos discutir como ampliar, melhorar e democratizar uma política cultural. No governo anterior, muitas vezes estávamos lutando para impedir que a própria política cultural desaparecesse.
BC: Uma mensagem aos fãs da Bauhaus Cultural.
Primeiro eu quero agradecer pelo convite e mandar um beijo enorme para todo mundo que acompanha a Bauhaus Cultural.
E vou aproveitar esse espaço para fazer um pedido: prestigiem os artistas. Principalmente os artistas independentes e aqueles que estão produzindo fora dos grandes circuitos.
Tem muita coisa maravilhosa acontecendo na Baixada, no subúrbio, nas periferias e no interior que a gente simplesmente não conhece porque não recebe a mesma divulgação nem tem os mesmos espaços.
E como eu sou professora, vou terminar passando dever de casa, não tem jeito. Procurem um artista que vocês ainda não conhecem. Assistam a uma peça, ouçam uma banda nova, comprem um livro de um autor independente, conheçam um espaço cultural fora do circuito que vocês frequentam normalmente.
A cultura precisa de política pública, claro, e essa é responsabilidade de quem está em lugares como a Alerj. Mas ela também precisa de gente curiosa, disposta a descobrir coisas novas.
E quero convidar vocês também a conhecerem o trabalho que construímos nesses quatro anos na Alerj, nossas propostas, nossas leis e as lutas que o nosso mandato abraçou. Neste ano eu sou candidata à reeleição para deputada estadual. Meu nome é Elika Takimoto e meu número é 13021.
Um beijo para todo mundo da Bauhaus Cultural e muito obrigada pelo carinho e pelo espaço.

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