Estes dias, surgiu na Revista Literatura Marginal 13 uma nova colunista. Seus artigos têm chamado muita atenção inclusive de muitos haters. Mas devo admitir que eles são muito bem escritos. Seu nome é Aurora Zanco e ela escreveu este texto que eu acho maravilhoso.
É alarmante o crescimento de "mulher misógina". Defensoras do movimento Redpiil. A famosa "mulher barata". Defende o inseticida. Invalida mulheres fortes, livres e independentes. Vamos lá... Ela acorda cedo, não por disciplina, mas por desespero. O espelho reflete o olhar dele, não o dela. A carência que a move não é falta de afeto; é falta de um nome próprio no cadastro social. Ela precisa do carimbo "esposa" e "mãe" para não se sentir um rascunho. Mas o misógino que ela escolhe defender não a vê como parceira; vê como troféu e, pior, como alvo. Quanto mais ela aplaude a misoginia, mais se curva à lógica que a aniquila. É o pacto fáustico da subalterna: "Se eu concordar que sou objeto, talvez ele me trate como sujeito." Engano. Ele a odeia por ser mulher, e ela, ao defender essa ótica, entrega a própria pele ao triturador. Psicanaliticamente, é a identificação com o agressor levada à autofagia; filosoficamente, é a escrava que beija o chicote para provar que é útil. Essas mulheres, tão dóceis na aparência e tão ácidas na desesperança, casam-se com seus inseticidas. Acham que o veneno vai matar a solidão. Mas elas são metaforicamente falando, "as baratas". O veneno não elimina a carência; ele esteriliza a alma. O marido vira a fórmula química que a dissolve lentamente, dia após dia. Os filhos? A prova de que o cativeiro foi consumado, não a prova de que o amor venceu. Elas se tornam alvos porque, ao defender o algoz, entregam a localização exata do próprio pescoço. O misógino respeita quem o enfrenta, mas despreza quem o lambe. A validação buscada no "ter alguém" é a armadilha mais antiga: enquanto correm atrás do selo masculino, perdem o rastro de si mesmas.
A liberdade, dura e nua, seria recusar o contrato. Mas o vazio sem o veneno é assustador demais. Por isso, perpetuam o ciclo: defendem a mão que as esmaga, chamam de amor o que é puro domínio, e colhem, todo dia, o desprezo que plantaram na própria escolha. O inseticida não as mata de uma vez; faz pior: deixa-as vivas, rastejando, sempre à espera da próxima borrifada, enquanto o espelho, agora quebrado, só devolve estilhaços do que um dia poderiam ter sido.
@aurorazanco_autora
@aurorazanco_escritora
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